Ir para o conteúdo principal
5 min de leitura

Mulheres quebram preconceito na medicina

No Dia Internacional da Mulher, médicas comentam seus desafios

Redação AMP quarta-feira, 07 de março de 2012

Lidar com o preconceito que ainda existe na profissão e conciliar carreira, vida acadêmica e família. Esses são os maiores desafios apontados pelas mulheres médicas, que, cada vez mais, tomam conta de consultórios e hospitais no Paraná. Neste Dia Internacional da Mulher, a Associação Médica do Paraná ouviu três profissionais de referência no Estado sobre a situação da mulher médica. Elas admitiram terem sofrido com o preconceito, principalmente no início de carreira, e contam como fizeram para superar tabus e tornarem-se profissionais bem-sucedidas sem deixar de lado suas atribuições na família.

Diretora científico e cultural da Associação Médica do Paraná, a ginecologista Regina Celi Passagnolo Sérgio Piazetta conta que sofreu com preconceito, principalmente, no período da faculdade. “Senti isso na faculdade, onde éramos apenas 25% da turma. Na época da residência, até para conseguir uma vaga, tinha a dificuldade, em muitas entrevistas fui perguntada se não ia engravidar e desistir da residência antes do final, ou seja, era um critério de seleção dessa ‘mão de obra’. E isso continua porque minha filha se formou esse ano e relata que colegas passaram por esse questionamento”, disse. “Na faculdade, tinha até um certo receio de demonstrar feminilidade, seja indo de saia ou me pintando, pois para colegas e professores, isso era sinal de fragilidade. Tinha que ser durona para mostrar que você ia ser tão competente quanto. Hoje não há mais essa preocupação”, acrescentou. Para a dra. Regina, a resistência do paciente em ser tratado por uma médica praticamente acabou, “mas, por parte dos colegas, essa evolução parece estar mais lenta”.

Relato semelhante fez a dra. Maria Laura Neme, presidente da Associação Médica de Cianorte. “A mulher, na profissão, tem que mostrar que é boa para ser respeitada, ainda existe uma desconfiança inicial, que só é desfeita quando a mulher se mostra competente, temos sempre que nos fazer respeitar. Mulher não pode chorar, porque dizem que é fraca, não pode se irritar, porque dizem que é louca”, brincou. “Já nos pacientes, em várias especialidades, eles até preferem mulheres, como na pediatria, por exemplo, por sermos maternais, mais carinhosas, atenciosas, mais dócil com as crianças. Já tem paciente optando por médica mulher. Até em algumas especialidades que antes eram terrenos exclusivos de homens, como a cirurgia e a ortopedia, as mulheres já estão chegando”, constatou.

A professora dra. Viviane Flumignan Zétola, que coordena o departamento de neurologia do Hospital de Clínicas de Curitiba, também vê crescer uma preferência dos pacientes por médicas mulheres “o comprometimento da mulher médica com o paciente acaba por ter uma pitadinha maternal, de cuidado, que auxilia nessa relação, principalmente para o paciente, disse. “Nós ouvimos mais, compreendemos mais, o que facilita o entendimento de muitas doenças que tem a ver com o contexto psicológico do indivíduo. O cuidar de alguém é uma coisa feminina”, emendou a dra. Regina.

Nenhuma das três médicas abriu mão da experiência de ter filhos por conta da profissão e apontam essa conciliação entre casa e consultório ou hospital como o maior desafio da carreira. “São muitos os desafios, mas sem duvidas a conciliação com os filhos é o maior. A vida academica, social, a vaidade não é o ponto. Contudo, dificilmente conseguimos substituir nosso papel de mãe, mesmo quando o marido é bastante comprometido”, disse a dra. Viviane. “Não é fácil levar, em muitos momentos fiquei distante até mesmo das sociedades médicas, quando tinha filhos pequenos, mas nunca deixei de ser atuante na profissão. Dá para levar, a não ser em situações muito especiais, a mulher consegue levar a profissão como outra qualquer, fazendo adequações em sua agenda. Em hipótese alguma a mulher deve abdicar de sua profissão”, comentou dra. Regina.

“O maior desafio é conciliar família e profissão. Ser bom médico e boa dona de casa. Para isso, tem que gostar muito do que faz, e eu faço medicina por amor. Com ideais firmes, vendo a necessidade de se melhorar a situação do médico em nossa cidade e no estado, ainda conseguimos tempo para tocar a Associação Médica de Cianorte” comentou dra. Maria Laura, que apontou a vantagem de morar no interior do Estado. “Morando no interior, pela proximidade das coisas, a gente não perde a mão da casa, consigo levar meus filhos na escola, buscar, almoçar com eles, mas é corrido”.